Poéticas em rede: Imagens de si, e a busca do paraíso virtual

O curso faz parte das atividades dos projetos de Pesquisa e Extensão – Poética em Rede: A Busca do Paraíso Virtual

Orientador:
Ivan Ferrer Maia - Professor, mestre, doutorando/UNICAMP, orientador do Projeto de Pesquisa (UEMG – Campus de Campanha).

Alunos Iniciação Científica:
Luciana Braz Jorge - Departamento de Educação. Bolsista PAEx /ProUEMG.
Luis Fernando Perna Firmino - Departamento de Sistemas de Informação. Bolsista PAPq/ProUEMG.

ÁREA FAPEMIG: COMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO

1. INTRODUÇÃO

A onda de transformações, caracterizada por mudanças em todas as áreas de nossa sociedade, está afetando os seis bilhões de seres vivos espalhados irregularmente pelo solo terrestre, principalmente a partir do surto demográfico do pós-guerra. A humanidade está trocando a proximidade física pela informacional, criando situações com limites indeterminados e irregulares entre e dentro de culturas. Conforme alertou Bhadha (2003), essa situação acarreta na perda da identidade, imposta por políticas mercantilistas e na crise da subjetividade. O excesso de informações constitui um “segundo dilúvio”, que ganhou força com as mídias digitais e industriais, e são depositadas em nossa memória, com ou sem a permissão – estilhaços informacionais que se categorizam, muitas vezes, como informações parasitárias, que pode repercutir em significados diluídos, sem expressão para construir saberes e desenvolvimento estético. O sujeito se adapta a epidemia informacional, principalmente imagética, ficando no estado passivo diante delas – cegueira de olhos abertos. No país das novelas e minisséries, 70% da população são excluídas da linguagem digital, não conseguem decodificar e dar significados aos diferentes meios digitais (“Assessoria de Comunicação do MEC”, 2003). São necessários múltiplos letramentos que valorizem o usuário crítico e criativo, em vez de consumidor apenas passivo. Por isso a importância de avaliar a construção dos letramentos no espaço dialógico virtual e social, enquanto busca de soluções que levem os sujeitos a se expressarem autonomamente, sem perder os aspectos históricos e culturais. É também importante oferecer opções para representar e expressar e, dessa forma, aprender a orientar-se e a encontrar referências que permitam, de forma significativa, analisar, selecionar, interpretar e fazer uso, de maneira crítica e criativa, das informações que recebe diariamente e das multimídias produtoras e disseminadoras dessas informações.

2. OBJETIVOS

Dessa forma, o objetivo desse estudo é avaliar a construção de letramentos, a ponto dos sujeitos apropriarem-se das tecnologias e criarem uma linguagem poética em rede, utilizando elementos do próprio contexto. Visa-se também verificar a relação dos letramentos na reestruturação das representações mentais e da transformação da própria concepção de mundo (despertar da consciência).

3. JUSTIFICATIVA

Esse estudo justifica-se pela relevância de entendermos, dentro de um enfoque sócio-histórico, como esses moradores usam o próprio contexto e realidade, como matéria prima, para a construção do conhecimento e elaboração de uma poética usando a tecnologia digital e, paralelamente, para a transformação da própria concepção de mundo. Ao mesmo tempo, podemos verificar a trajetória da criação de uma poética experimental e em rede como elemento mediador para alterar a estrutura das representações mentais, como processo de reconstrução da realidade intelectual e perceptiva. Paralelamente teremos a possibilidade de entender como os adultos vão construindo o discurso poético a partir dos próprios contextos e as possibilidades que a rede permite, considerando o aspecto sócio-histórico e sistêmico de mundo. Enfim, torna-se relevante a capacitação qualificada, abrangendo competências amplas e diversificadas, que compreendem o domínio crítico das tecnologias, enquanto instrumentos para a construção de conhecimento, capacidade de apropriação, autonomia diante dessas tecnologias e transformação da própria realidade.

4. METODOLOGIA

A pesquisa foi fundamentada na metodologia de pesquisa-ação (Thiollent, 2004; Morin, 2004), pressupondo uma atitude participativa e investigativa dos atores envolvidos, sujeitos e pesquisadores-formadores. O uso desta metodologia buscou a democratização das práticas educativas e sociais, nos locais onde ocorreram a pesquisa-ação. Enquanto métodos que caracterizam as poéticas digitais como métodos heurísticos de criação, adotamos a poética da experimentação e a poética construída em rede (Plaza & Tavares, 1998). A primeira procura desvendar as possibilidades estéticas a serem obtidas com os meios. Experimenta com objetivo de encontrar novas formas de se expressar. A segunda se caracteriza pela criação e transmissão de imagens construídas a partir da troca subsidiada entre os membros de uma rede telemática. Completando os métodos, foi usada uma observação qualitativa, que considera a subjetividade e o aspecto sócio-histórico de cada participante. Os instrumentos de coletas de dados foram as imagens captadas e criadas pelos aprendizes, as entrevistas, relatórios das discussões e atividades em grupo, os registros das atividades realizadas no computador e nos ambientes virtuais, além de observações in loco, com anotações em diários de campo. A pesquisa é longitudinal, com duração de um ano. Nesse período foi feita captação de dados, análise dos resultados e desenvolvimento de um documento escrito.

Os sujeitos da pesquisa, nos dois primeiros meses, foram três funcionários da própria instituição, representantes de bairros periféricos, sem experiência em tecnologia digital. Após, foram contemplados mais 27 membros da sociedade. Todos eram adultos, sendo que 50% do grupo possuíam faixa etária superior a 50 anos de idade e nível de escolaridade até 5ª série do Ensino Fundamental. Atuaram como mediadores da aprendizagem dois estudantes bolsistas ProUEMG, um de Sistemas de Informação e uma de Pedagogia. As atividades ocorreram no Laboratório de Informática do curso de Sistemas de Informação da UEMG campus Campanha. A sua localização não destoa do contexto dos moradores, por estar localizado no mesmo bairro ou próximo das residências dos aprendizes. As atividades passaram por três momentos:

1º) Letramentos: é uma expansão do termo letramento. Nessa pesquisa centramos nos quatro elementos abaixo:

a) Letramento Digital: Desenvolver habilidade para localizar, filtrar, avaliar e construir criticamente sentidos a partir de imagens e textos, por meio de hipertextos, links e hiperlinks.

b) Letramento Visual: Construir habilidades não somente de ler e criar imagens, mas também de avaliá-las a fim de entender a relação entre o significado socialmente construído embutido nas imagens, como também os contextos político e econômico nos quais as imagens estão inseridas.

c) Letramento Informacional: Capacitar a busca e a produção crítica das informações em diversos meios de comunicação, principalmente os digitais.

b) Letramento Sonoro: Desenvolver habilidades para ouvir sons, distinguir sons, o som enquanto informação, arte, conhecimento e entretenimento, além de discutir a relação som com os aspectos sociais..

2º) Desenvolvimento da Poética Experimental: Visa-se desenvolver uma coletânea de poéticas voltadas a experimentações de técnicas e recursos das imagens, em suporte digital, enquanto representação do sujeito criador e do seu contexto. Buscar o olhar crítico, auto-representativo e do contexto.

3º) Desenvolvimento da Poética em Rede: Procura-se criar uma poética em rede, a partir dos trabalhos experimentais, que serão disponibilizados em um Ambiente Virtual. Estudar as passagens contemporâneas entre mediações primárias (corpo, texto, lugar) e “a-genciamentos no ciberespaço" implicando virtualização.

As categorias que foram usadas para subsidiar o trabalho referente ao processo de conscientização e de reestruturação das representações mentais são inerentes ao processo vygotskyano de subjetividade: não-consciente, consciência, metaconsciência (Vygotsky apud Frawley, 2000).

a) Não-consciente (znanie): é a codificação automática sem a experiência subjetiva ou a consciência dos mecanismos de processamento.

b) Consciência (soznanie): é a experiência com a consciência, saber explícito, lúcido.

c) Metaconsciência (osoznanie): é a autoconsciência, associar experiências que são conscientes.

O conteúdo programático foi construído em diálogo com os aprendizes. Foram ouvidos dos mesmos, histórias de vida, seus desejos e necessidades, sua maneira de viver, seu trabalho, seus gostos. A partir dos relatos, os conteúdos foram organizados em níveis de aprendizagem e foi estabelecido estratégias de ação pedagógicas que contemplaram desde jogos educativos, visita em sites à produção de imagens e poesia.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Assessoria de Comunicação do MEC (2003). UnB apresenta projeto de inclusão digital ao ministro. Brasília, DF: Adelina Lapa. Acessado em 15/03/2006, de http://www.mec.gov.br/acs/asp/noticias/noticiasId.asp?Id=3128

Bhadha, H. K. (2003). O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG.

Frawley, W. (2000). Vygotsky e a ciência cognitiva. Porto Alegre, RS: Artes Médicas Sul.

Morin, A. (2004). Pesquisa-ação integral e sistêmica. Rio de Janeiro: DP&A.

Plaza, J., & Tavares, M. (1998). Processos criativos com os meios eletrônicos: poéticas digitais. São Paulo: Hucitec.

Thiollent, M. (2004). Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez.




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